A pergunta que ela não fez

Ela não perguntou.
Guardou o papel dobrado dentro de um livro de receitas, na gaveta do quarto do fim do corredor, e passou três dias fingindo que não sabia de nada. Era o que Heitor fazia, afinal: fingir. Ela ia aprender com o melhor.
O problema é que ficou difícil odiar alguém que aparecia às quatro e quarenta da manhã na porta do quarto dela com a chave do carro na mão.
— Você não precisa me levar todo dia — disse Marina na quarta madrugada. — Eu pego o primeiro metrô.
— O primeiro metrô sai às quatro e quarenta. Você chegaria atrasada.
— Você nem sabe a que horas eu começo.
— Quatro e cinquenta você acende o forno. Cinco em ponto sai a primeira fornada. Às cinco e dez você briga com o seu pai porque ele quer carregar o saco de farinha sozinho. — Heitor abriu a porta do carro para ela. — Eu presto atenção.
Ela entrou no carro sem responder. Quem era aquele homem? O mesmo que tinha comprado a dívida da família dela em segredo? O mesmo que tinha escrito “é proibido se apaixonar” em negrito?
Na Avenida Brasil vazia, com a cidade ainda escura, ela arriscou uma pergunta. Não a pergunta. Uma menor.
— Por que você odeia festa?
Heitor demorou para responder. O farol fechou, e ele parou mesmo sem nenhum carro por perto.
— Minha mãe morreu numa festa — disse ele. — Aniversário do meu avô. Eu tinha onze anos. Ela passou mal no meio do salão, e ninguém quis parar a festa, porque tinha investidor japonês no jantar. Quando a ambulância chegou, já não dava mais.
Marina ficou em silêncio.
— Meu avô disse que eu tinha que aprender a não chorar em público. — O farol abriu. Heitor não se mexeu. — Eu aprendi bem demais.
Um carro buzinou atrás deles. Heitor arrancou. E Marina, sem pensar, estendeu a mão e apertou o braço dele por cima do terno. Só isso. Um aperto rápido.
Ele não disse nada. Mas também não tirou o braço.
Na padaria, ela passou o dia inteiro errando o ponto do pão.
— Tá com a cabeça onde, menina? — reclamou a mãe, jogando fora uma fornada de baguete queimada.
— Em lugar nenhum, mãe.
— Lugar nenhum tem terno e busca você de madrugada?
Marina jogou um punhado de farinha na mãe, que riu e revidou, e as duas terminaram brancas até os cotovelos, rindo como não riam fazia meses. O pai olhou da porta, com o joelho enfaixado, e sorriu pela primeira vez desde que o aviso do banco tinha chegado.
— Esse rapaz — disse ele, apontando com o queixo para o carro preto parado do outro lado da rua. — Ele fica lá o dia inteiro?
Marina olhou. O carro de Heitor estava estacionado na frente da farmácia. Ele estava dentro, de terno, fazendo uma videoconferência no celular, olhando para a padaria de vez em quando.
— Ele disse que trabalha melhor fora do escritório — respondeu ela, sem convicção.
— Filha. — O pai apoiou a mão no ombro dela. — Homem nenhum trabalha melhor numa rua do Bixiga. Ele tá é de guarda.
Naquela noite, na cobertura, Marina abriu a gaveta, pegou o papel dobrado e ficou olhando para ele por muito tempo.
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Se ele era o vilão, por que parecia tanto com alguém que estava protegendo?
Ela guardou o papel de novo. Amanhã, prometeu a si mesma. Amanhã eu pergunto.
Do outro lado do corredor, a luz do quarto de Heitor ficou acesa até as três da manhã.
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