

O Hóspede
Ícaro tem dezenove anos, estuda biologia na federal de Pernambuco e passa as madrugadas no mangue do Capibaribe coletando caranguejos para uma pesquisa que ninguém lê.
Numa noite de chuva, perto das obras de dragagem do novo porto, ele corta a mão numa lata enferrujada. Alguma coisa escura e viva entra pelo corte.
Na manhã seguinte, a mão esquerda dele abre um olho e diz, em português perfeito, que aprendeu a língua assistindo vídeos no celular dele a noite inteira. Chama a si mesma de Maré.
A dragagem acordou uma coisa que dormia havia milhares de anos na lama. Ícaro teve sorte: a dele entrou pela mão.
Em Recife, muita gente não teve.
Autor: Kinho
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