O Contrato de Seis MesesCapítulo 2

As cláusulas

Ela leu o contrato três vezes, sentada no degrau dos fundos da padaria, com o cheiro de fermento grudado no cabelo.

Doze páginas. Quartos separados. Presença obrigatória em eventos da família e da empresa. Beijos, abraços e demonstrações de afeto apenas em público e apenas quando necessário. Sigilo absoluto. Multa pesada para quem quebrasse qualquer cláusula.

E, em negrito, a sete: “As partes declaram ciência de que o presente acordo não envolve sentimentos e se comprometem a não desenvolvê-los.”

— Que tipo de gente escreve isso num contrato? — perguntou Marina para o gato do vizinho, que não respondeu.

O pai apareceu na porta com um pão na mão e o joelho arrastando.

— Tá tudo bem, filha?

Ela olhou para ele. Para o avental manchado, para as mãos cheias de calo, para os quarenta anos de madrugada que estavam naquela padaria. Guardou o contrato no bolso do avental.

— Tá sim, pai. Vai descansar.

Naquela noite, ela ligou para o número do cartão.

— Eu aceito — disse, antes que ele falasse alô. — Mas tenho uma cláusula também.

Silêncio do outro lado. Depois, a voz grave, com um fundo de surpresa:

— Pode dizer.

— Eu não largo a padaria. Às quatro da manhã, eu estou aqui. Todo dia. Com chuva, com festa, com o que for.

— Aceito.

— E o senhor para de me chamar de senhora.

Pela primeira vez, ela ouviu Heitor Vasconcellos rir. Foi curto, quase um susto.

— Aceito também, Marina.

A cobertura nos Jardins parecia uma revista de decoração em que ninguém morava de verdade. Tudo cinza, branco e vidro. Uma cozinha enorme com um fogão que nunca tinha visto uma panela. Marina passou o dedo no balcão e não encontrou nem poeira nem vida.

— Seu quarto é o do fim do corredor — explicou Heitor, carregando a mala dela como se fosse um objeto estranho. — Tem banheiro próprio. A senha da porta é o seu aniversário.

— Como você sabe o meu aniversário?

— Eu sei tudo que está no seu cadastro do banco.

— Isso é assustador.

— Isso é eficiente.

Ela largou a mala no chão e olhou para ele.

— Vamos combinar uma coisa, Heitor. Se a gente vai passar seis meses fingindo, pelo menos finge que é gente. Ninguém se apaixona por uma planilha.

Ele abriu a boca para responder e fechou de novo. Por um segundo, Marina achou que tinha acertado alguma coisa que doía.

O jantar com o avô foi no domingo, numa mansão no Morumbi com mais empregados do que convidados. Dom Álvaro Vasconcellos era baixinho, magro, de bengala, e tinha os mesmos olhos escuros do neto. Olhou para Marina de cima a baixo como se estivesse conferindo mercadoria.

— Padeira — disse ele. Não era pergunta.

— Padeira — confirmou Marina. — Terceira geração.

— E o que uma padeira do Bixiga vê no meu neto?

A mesa inteira ficou em silêncio. Uma tia de colar de pérolas escondeu o sorriso atrás do guardanapo. Um primo de cabelo penteado para trás, que tinha se apresentado como Otávio, cruzou os braços com interesse.

Heitor ia responder. Marina foi mais rápida.

— Vejo um homem que toma pingado com açúcar sem reclamar só para não ser mal-educado — disse ela. — E que deixou cem reais numa padaria que estava quebrando, sem pedir troco. O senhor criou ele para ser duro. Mas ele não é tanto quanto pensa.

Dom Álvaro ficou olhando para ela um tempo longo demais. Depois bateu a bengala no chão, uma vez.

— Gostei dela — disse para ninguém em especial. — Sirvam a sobremesa.

No carro, na volta, Heitor dirigiu em silêncio por quase vinte minutos. No farol da Rebouças, ele finalmente falou, sem tirar os olhos da rua:

— Aquilo que você disse no jantar.

— Era teatro. Estava no contrato.

— Eu sei. — Ele apertou o volante. — Foi bem convincente.

Ela olhou pela janela para esconder o sorriso. Cláusula sete, repetiu para si mesma. Cláusula sete.

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